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domingo, agosto 08, 2004

A Metamorfose 

Com esse post, convido vocês ao incrível mergulho que venho fazendo [e conseguindo persistir!] esses dias no surreal “A Metamorfose” de Franz Kafka. A obra vem se provando tudo aquilo que eu esperava desde que, no primeiro colegial, uma professora interessante me recomendara a leitura.
E é uma oportunidade de cutucar a Júlia, que também queria ler e ficou pra trás nessa! :-)
O trecho a seguir foi levianamente selecionado dentro de uma infinidade de momentos da história que todo mundo devia conhecer. Leituras repetidas podem ser necessárias para chegar ao fundo da mensagem, de circuntâncias a princípio alheias, mas que carregam dilemas identificáveis por todos nós: o que é que hoje ameaça a preservação daquilo que nos alerta de que somos humanos? Será que somos capazes de semelhante apego a tal objeto de memória, procurando ser fiéis a ele, ainda que isso nos imponha alguma restrição? O que estamos deixando para trás em busca de maior comodidade?

“(...) e não é como se estivéssemos mostrando, com o afastamento dos móveis, que abandonamos qualquer tipo de esperança numa melhora, largando-o à própria sorte? Acredito que o melhor seria procurarmos manter o quarto exatamente no estado em que se encontrava antes, a fim de que Gregor, quando voltar a nós, encontre tudo como estava e possa esquecer de modo mais fácil de tudo o que aconteceu nesse meio tempo.”

[...]

“[Gregor] Tinha de fato vontade de mandar que seu quarto, aquele quarto morno, confortavelmente instalado com móveis herdados, fosse transformando em uma toca, na qual ele poderia se arrastar com liberdade em todas as direções, sem ser perturbado, mas pagando o preço de esquecer de modo simultâneo, rápido e completo seu passado humano? De fato agora já estava próximo de esquecer, e apenas a voz de sua mãe, que ele não ouvia há tempo, dera-lhe uma sacudida interna. Nada deveria ser afastado; tudo tinha de ficar; as boas influências dos móveis sobre sua situação ele não podia dispensar; e se os móveis o prejudicassem no ato de se arrastar por aí sem sentido, isso não era um prejuízo, mas sim uma grande vantagem.”

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