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terça-feira, setembro 21, 2004

Inversão existencial 

Domingo, às 20h30min, tendo trabalhado exatamente até o minuto de sair, eu tive certeza de que o plantão não tinha valido à pena. Estava num primeiro dia de resfriado, em jejum para tentar colher sangue, e, num surto de vigilância moralizante, o chefe da equipe resolve acreditar que não estávamos fazendo nada, só porque o plantão estava menos movimentado. As salas de atendimento sendo esvaziadas, os pacientes todos evoluídos – evento inédito – e o mané, com a simpatia que lhe é peculiar, fazendo comentários de um sarcasmo elaboradíssimo:
"Assim é muito fácil dar plantão em emergência... Só encontro vocês na cafeteria, batendo papo nos corredores, na sala de descanso.... Dar plantão nessa equipe é muito fácil!"
Ali mesmo, decidi que não seria abalado por aquilo. É claro que a figura só nos encontraria nas horas de descanso – merecido almoço de meia hora depois de uma manhã de jejum e tempo para escovar os dentes depois! – porque nas salas ele nem entrava! Cada vez que cruzava comigo, aporrinhava. Que ódio!!! [É. Não sou inabalável.]
Mas como acontece, pra não me deixar chafurdar na minha revolta, a realidade me prega uma peça. Ontem, voltando do barbeiro, encontrei um paciente que atendi para a alta depois que teve um episódio de crise convulsiva por abstinência alcoólica, já que tinha abandonado o tratamento com anti-epilético para voltar a beber dois meses atrás... Na hora de sair, ele me pediu, com a postura mendicante de que todo homem devia se revestir, que eu lhe conseguisse uma refeição. Tinha passado 24 horas no hospital sem comer nada! Não sabia como fucnionava isso, mas perguntei às pessoas certas e dei um jeitinho de inserir a dieta numa lacuna da papeleta dele. Carimbada, óbvio! [Por favor, não me processem.]
E o cara me aparece num balcão de padaria aqui do lado de casa! Eu o reconheci de costas porque estava com a mesma roupa (tsc) e pensei logo “deve estar pedindo uma pinga e cagou para as minhas recomendações de retomar o tratamento!”. Mas fui cumprimentá-lo assim mesmo, quando ele recebeu um café preto. Quase entalei para engolir o meu preconceito e perguntei se ele tinha conseguido almoçar no dia anterior. Depois de um tempo pra me reconhecer – afinal, eu tinha feito a barba! –, o olhar dele era tão agradecido pelo pouco que eu tinha feito que caiu sobre a minha cabeça como uma bigorna toda a negatividade que começava a prevalecer, e seria carregada pros plantões futuros.
É, Gustavo! Mais uma pra você aprender...

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