sexta-feira, agosto 19, 2005
Crise politica: o que eu tenho a ver com isso?
Estamos presenciando uma forte crise política no país. Mas, ainda que indignados, estamos também, em geral, num marasmo. Assistimos aos acontecimentos da crise como realidade distantes de nós: emitimos nossas opiniões, cobramos responsabilidades e exigimos justiça, mas sem nos reconhecermos como parte dela.
Frustrados em nossas expectativas, nos encontramos indignados e desanimados: "político é tudo igual", "temos que punir os culpados", "o Brasil não tem jeito"...
Esse posicionamento parece ter sua origem na cultura. Colocamos os nossos problemas individuais como sendo prioritários em relação aos sociais. Não entendemos que os problemas sociais são relevantes também para toda pessoa porque nossa cultura privilegia o individualismo.
Talvez não se trate de uma corrupção apenas pontual. Há então, níveis de corrupção. Uma corrupção em um nível político-social, como a que nós temos visto. Uma corrupção cotidiana, o "jeitinho brasileiro", onde são cometidas infrações acobertadas pela sociedade. E por fim, uma corrupção individual, onde a pessoa abandona seus valores e aspirações mais íntimas em função das imposições da própria dinâmica social atual. A idéia de que a solidariedade nos levaria a construir um mundo melhor é substituída pelo medo da violência, fazendo com que a confiança no ser humano seja tomada como uma postura demasiado ingênua para os dias de hoje.
Mas, ainda que constatemos uma marca forte do individualismo em nossa cultura e que a corrupção esteja presente tanto no nível social quanto no pessoal, encontramos diversos exemplos de atos verdadeiramente solidários, ou melhor, verdadeiramente sociais em nossa cultura. O que parece razoável é enfrentarmos os problemas políticos que o país vem passando, passou e provavelmente irá passar, não de uma maneira passiva, onde apenas se emite uma opinião ou se exige um direito (como o da punição), mas valorizando espaços de produção de cultura real que nos sustentem, a todos (políticos e homens comuns), em uma posição construtiva, capaz de favorecer auto-crítica e retomada contínua dos ideais.